A norma funciona como blindagem regulatória para as pautas de diversidade, que são tão ameaçadas em tempos de retrocesso.
Por Cecília Margutti, em colaboração especial com a Você S/A*
Publicado em 10 jan 2026, 08h00
VC S/A
Enquanto a reforma tributária domina o noticiário e orienta decisões no alto escalão das empresas, um outro movimento, silencioso, porém profundamente estruturante, avança sem receber a mesma atenção : a atualização da NR-1. Aquilo que muitos ainda consideram uma mera norma técnica é, na realidade, um novo marco regulatório que reposiciona o bem-estar, os fatores psicossociais e a inclusão como exigências legais, e não mais como iniciativas discricionárias ou diferenciais reputacionais.
Em meio a uma agenda econômica marcada por incertezas e transformações aceleradas, a reforma tributária pode até ocupar o protagonismo, mas é a NR-1 que desponta como o segundo maior desafio organizacional dos próximos anos justamente por impactar cultura, governança, responsabilidade jurídica, produtividade e sustentabilidade do negócio.
A atualização da NR-1 redefiniu a estrutura do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais e ampliou, de forma inédita, o escopo das obrigações das empresas ao exigir a avaliação e o monitoramento de todos os riscos ocupacionais, inclusive os psicossociais. Essa mudança, ainda subestimada em muitos conselhos e comitês executivos. coloca temas historicamente relegados às áreas de Recursos Humanos no centro da discussão de conformidade: assédio moral e sexual, discriminação, violências institucionais, sobrecarga laboral, modelos de gestão que geram insegurança psicológica e dinâmicas organizacionais que produzem exclusão. Pela primeira vez, a legislação brasileira reconhece que esses elementos não são apenas questões comportamentais, são riscos ocupacionais que afetam a saúde, o desempenho e a permanência das pessoas.
Os dados globais reforçam a urgência. Segundo o relatório da Gallup, ambientes tóxicos, marcados por assédio, discriminação e baixa segurança psicológica, geram US$ 8,8 trilhões em perda de produtividade todos os anos. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) estimam que apenas depressão e ansiedade relacionadas ao trabalho provoquem US$ 1 trilhão anuais em perdas de produtividade. A própria OMS ressalta que fatores organizacionais, como práticas de gestão inadequadas, assédio, discriminação e ambientes laborais inseguros ou desestruturados, estão diretamente associados ao aumento de quadros de adoecimento mental relacionado ao trabalho.
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